24.11.2019 | Saímos de Arusha, na Tanzânia e pela frente tínhamos 4 horas de estrada até chegar em Nairóbi, capital do Quênia. A fronteira entre os dois países fica um pouco antes da metade desse trecho e foi quando fizemos a parada para passar pela imigração e, no nosso caso, pegar o visto “East African Visa”. Esse visto permite o trânsito entre o Quênia, Uganda e Ruanda, países que visitaríamos durante nosso Overland Tour (a ser explicado em breve). Com o visto em mãos, retornamos ao ônibus e no meio da tarde daquele domingo, chegamos no aeroporto de Nairóbi.
Já no aeroporto, saímos a procura do Smiley, taxista contratado pela Oasis (empresa responsável pelo Overland), para nos levar até o Karen Camp, nossa acomodação para aquela noite e local de partida da nossa aventura. Depois de alguns minutos, vimos um sorriso que não deixou dúvidas: ali estava o Smiley. 😁 Dirigimos com ele durante quase uma hora e ficamos impressionados pelo conhecimento que ele tinha do seu país e do mundo (inclusive do Brasil). 👏
Ao chegar no Karen Camp, deixamos nossas coisas e logo fomos até um shopping próximo onde havia uma Decathlon, pois precisávamos comprar umas coisinhas antes de começar nosso Overland. Durante os próximos vinte dias iríamos acampar a maior parte dos dias e a empresa forneceria a barraca, mas o colchonete e os sacos de dormir ficavam por conta de cada viajante. Os sacos de dormir nós já tínhamos comprado na África do Sul, já que precisamos deles para os dias acampando pela Namíbia e também pela Tanzânia. Na Decathlon – que tem um ótimo preço e sempre nos salva – compramos um colchão de ar e assim as nossas noites na barraca ficariam mais confortáveis.
De volta ao Karen Camp, no início da noite, tivemos uma reunião com nossa líder do tour para entregar a documentação necessária (cópia de passaporte e seguro viagem) e conhecer parte do grupo que estaria com a gente nessa aventura. Jantamos no restaurante do hostel junto com o pessoal e logo fomos dormir.
Sobre o Overland Tour – antes de começarmos a planejar nosso roteiro pela África, nunca tínhamos ouvido falar sobre essa modalidade de viagem, que é bem comum por lá. Como uma tradução literal sugere, trata-se de uma viagem sobre terra, com milhares de quilômetros rodados durante o percurso. No geral, as empresas que oferecem esse tipo de viagem usam um caminhão adaptado, que na parte traseira tem bancos estofados para aguentarmos longas horas na estrada. O caminhão também dispõe de lockers para os pertences pessoais, além de mesa e cadeiras de acampamento, utensílios de cozinha, uma dispensa onde guardamos os alimentos e também um armário onde ficam nossas barracas. Abaixo uma ideia de como era a vida dentro e fora do caminhão. 🚛 😃


Então, no dia 25.11.2019, uma segunda-feira, começou nosso Overland Tour. Com todos reunidos para partir, o grupo estava finalmente formado. Ao todo éramos 18 pessoas: 8 britânicos (de diversas regiões e idades) , 3 neozelandeses, 1 australiana, 1 americana, 1 canadense, 1 paquistanês, nós 2 brasileiros e nosso incrível motorista queniano, o Often!
Nosso roteiro incluía diversas paradas em 4 países: Quênia, Uganda, Ruanda e Tanzânia. Basicamente, viajaríamos ao redor do Lago Victoria, saindo e voltando por Nairóbi. O mapa abaixo ajuda a ter uma ideia. 😉

No primeiro dia, antes de começarmos a viagem, tivemos um “tour” pelo caminhão para saber onde ficavam as coisas e como tudo deve ser guardado depois de utilizado. Fazer tanta coisa caber num caminhão é um verdadeiro desafio de tetris, então manter o padrão é bem importante. Depois da explicação, cada um tomou seu assento e finalmente caímos na estrada. A viagem do primeiro dia foi curta e depois de umas três horas de estrada já chegamos no Lago Naivasha, onde passamos a primeira noite.

O Overland é uma viagem colaborativa. No nosso caso, haviam duas pessoas da Oasis (a líder e o motorista), mas nós também ajudávamos uns aos outros na realização das atividades. Uma das principais era a montagem das barraca e a regra era: ao chegarmos no acampamento, a primeira coisa a fazer é montar nossas casas ambulantes, exceto em caso de chuva. Como era a primeira vez, o Often e a Jemma nos mostraram como montá-las e também onde guardá-las.
À noite foram eles também que cozinharam nosso primeiro jantar e aproveitaram o momento para nos dividir em 4 grupos de 4 pessoas, sendo que cada grupo seria responsável pelas refeições do dia em que foram alocados e também por fazer as compras dos ingrediantes. O orçamento era apertado, mas sempre nunca deixamos de comer bem. Casais, amigos e familiares eram separados para cozinhar em grupos diferentes. James e eu fomos chefs dos nossos grupos e, apesar de não cozinharmos tanto em casa, deu pra ver que tínhamos mais experiência que a maioria… Nossas refeições grupos fizeram sucesso!!! 👨🍳 😋
Chovia muito naquele dia, então aproveitamos internet da área comum do acampamento e trabalhamos em algumas reservas. Nosso acampamento ficava às margens do Lago Naivasha e à noite, quando a chuva deu uma trégua, fomos surpreendidos por hipopótamos que resolveram sair do lago para se alimentar, enquanto estávamos jantando. Os hipopótamos, apesar de parecerem inofensivos, são os mamíferos que mais matam humanos. EOMJI Mas a área ao redor do lago era cercada, então pudemos curtir a presença deles por ali tranquilamente.


No dia seguinte, os macacos estavam com a corda toda e quem não cuidou das suas coisas, acabou ficando sem parte do lanche, hehe. Logo depois do almoço já caímos na estrada novamente. Mais uma vez tínhamos uma três horas de estrada, que começou a passos bem lentos, por conta da chuva do dia anterior.


No meio do caminho, paramos no mercado e as equipes que iriam cozinhar nos próximos dias fizeram as compras, incluindo o James. Chegamos no acampamento já no fim da tarde e, enquanto levantávamos acampamento, a equipe do Chef James começou a preparar um delicioso strogonoff de carne. Sucesso total! Rasparam a panela – pra não dizer que, na verdade, faltou comida, haha. Seguir o orçamento e satisfazer o apetite de todos por uma boa comida não era fácil… hehe
O terceiro dia começou cedo, James e sua equipe madrugaram para preparar o café da manhã e depois fomos divididos em dois carros de safári. Passamos o dia explorando o Nakuru National Park, ainda no Quênia, e vimos muitos antílopes, zebras, girafas e babuínos, muitos babuínos.



Aliás, jamais esqueceremos dos babuínos. Enquanto estávamos distraídos, olhando a bicharada, um deles invadiu nosso carro pela janela, provavelmente atraído pelo cheiro das cascas das banana que tínhamos comido. Ficamos muito assustados. Aliás, pela gritaria, parecia que um leão tinha entrado no carro, haha 😬 O motorista acabou conseguindo espantar o babuíno, mas de repente ele entrou novamente pelo teto. 😱 A confusão se instalou no carro outra vez. O macaco vasculhou mais um pouco os assentos, enquanto a gritaria seguia. De repente, o babuíno foi atraído pelo cheiro da minha lancheira, onde estavam os sanduíches que seriam o nosso almoço. O babuíno finalmente agarrou a lancheira e saiu em disparada pela estrada… e nós, acabamos ficando sem almoço, mas ao menos saímos ilesos, sem nenhum arranhão. 😅 E contamos com a solidariedade do restante do grupo, que dividiu seus sanduíches com a gente.



A invasão do babuíno no carro foi, sem dúvida, o ponto alto desse safári! Mas também não podemos deixar de falar do visual lindo do lago Nakuru e da oportunidade que tivemos de sair do carro e ver um grupo de rinocerontes brancos bem de perto. Um dia inesquecível!





Depois de mais uma noite nas proximidades do lago Nakuru, no quarto dia de viagem pegamos a estrada em direção à Eldoret, última grande cidade do Quênia antes da fronteira com a Uganda. A cidade fica no Rift Valley, região que é a casa da tribo Kalenjin, conhecida por ser o berço dos grandes maratonistas quenianos, como Paul Tergat, Eliud Kipchoge, Brigid Jepscheschir Kosgei e muitos outros. Eu (Gabi) não perdi a chance e saí pra correr. Afinal, não é sempre que se tem a chance de treinar num lugar tão inspirador! 🏃♀️😃
Muitos estudos tentam identificar se algum componente diferenciado na genética dos Kalenjin confere a eles uma vantajem. É claro que o porte físico influencia no desempenho dos atletas, como acontece em qualquer modalidade. No caso da corrida de longa distância, as pernas mais longas e troncos mais curtos dos Kalenjin são dados como aspectos relevantes. Mas sabe-se que outras tribos e etnias também apresentam características parecidas, então o que garante a eles tanto sucesso seria mesmo o fato de aliarem o porte físico propício para o atletismo ao esforço, muito esforço. Treinar no Rift Valley, a mais de 2 mil metros de altitude, também faz parte dessa fórmula de sucesso. Afinal, a genética pode até ajudar, mas não existe mágica. Então, seguiremos treinando! 😁
No dia seguinte acordamos cedo, prontos para um longo dia de estrada rumo a Uganda. Cruzar a fronteira entre Quênia e Uganda foi um processo tranquilo e organizado e, em menos de uma hora, todo o grupo, de 18 pessoas, já estava liberado para seguir. Depois de umas 7 horas sobre rodas, finalmente chegamos em Jinja, uma das principais cidades de Uganda. Banhada pelo lindo lago Victoria, a cidade é muito conhecida pelas atividades aquáticas como rafting, caiaque e SUP (stand up paddle). Sua maior fama também vem das águas, pois lá é onde fica umas das nascentes do Rio Nilo, que percorre mais de 6700 quilômetros até desembocar no Mar Mediterrâneo.
Nosso camping ficava à beira do lago, com uma vista linda!!! Chegamos numa sexta-feira no final da tarde, então sentamos com o pessoal no deck do bar e fizemos um merecido happy hour pra contemplar o pôr do sol! 🍻😉


O sábado era um dia livre em Jinja, então aproveitamos a oportunidade para fazer um tour pela vila que ficava ao lado do nosso camping. Temos bastante receio com esse tipo de passeio, pois já fizemos alguns em que se tem a sensação de estar em um zoológico humano e isso não é nada legal. Porém, nesse caso, fomos surpreendidos positivamente. O passeio foi guiado por um morador local, e junto com ele e outras quatro pessoas do nosso grupo, pelas 10h da manhã saímos caminhando despretensiosamente pelo vilarejo. Passamos por uma área mais residencial, onde vimos nosso almoço ser preparado, entramos em algumas casas e brincamos muito com as crianças, tudo com muita naturalidade.




Seguimos a caminhada e fomos em direção a uma escola. No caminho, passamos por plantações de feijão, batata e muito mais. Também cruzamos com uma família que estava reunida para o almoço de sábado. Eles queimavam folhas de feijão para separar os grãos e intimaram o James a ajudar no trabalho, que não deixou passar a chance… hehehe





Era sábado e não tinha aula, mas ainda assim o movimento nos arredores da escola era grande. As crianças aproveitavam o dia livre pra brincar no balanço, jogar futebol e outras brincadeiras. Quando eles nos vêem, a festa é certa! Eles adoram tirar foto com os Mzungus, como são conhecidos os estrangeiros nessa região da África. Era assim em todos os lugares que passamos que falam swahili (língua local), não só aqui em Jinja. Nosso guia explicou que como os estrangeiros visitam muito a comunidade e desenvolvem trabalhos sociais, eles geralmente são muito bem vistos. É claro que as crianças também sabem que muitas vezes levamos balas, mas tem coisa melhor que ver um sorriso largo, de orelha a orelha, pelo simples fato de distribuir balas, beijos e abraços?!





Depois de nos distrairmos com as crianças, finalmente chegamos ao escritório da escola. Apesar de não ter aula, fomos recebidos por um aluno que nos explicou sobre o sistema de ensino do país e também apresentou projetos de trabalho voluntário na escola. Entregamos a ele algumas canetas e lápis que tínhamos e logo retomamos o passeio, afinal, nos distraímos tanto com as crianças que já era quase 1 da tarde e tínhamos que voltar ao vilarejo para o almoço. E que almoço! Nosso cardápio foi feijão, purê de banana da terra com molho de amendoim, aipim, batata doce e repolho refogado. Matou a fome e também a saudade de casa. Terminamos o passeio com a barriga cheia e o coração aquecido. 😍




Choveu muito naquela tarde. Quando parou, por volta das 16h, fomos conhecer rapidamente o centro da cidade e comprar umas coisas que faltavam. Aproveitamos para provar a tradicional banana assada na brasa, uma delícia!


Depois de mais uma noite às margens do Lago Victoria, na manhã daquele domingo muitas pessoas do grupo saíram para fazer rafting. Como a atividade era bem cara (140 USD), optamos por ficar no camping com o resto do pessoal, usar a internet para algumas reservas e curtir mais um pouco a vista linda do Lago Victoria. Por volta das 14h saímos com o caminhão para seguir viagem, mas logo que saímos do camping, o caminhão atolou. Tinha chovido bastante naquele dia, daquelas chuvas torrenciais de verão. Os primeiros quilômetros da viagem eram numa estrada de barro, que estava extremamente escorregadia e acabamos derrapando até parar em uma vala, onde a roda do caminhão atolou num buraco encoberto de água. 😩




Como era domingo, tinha bastante gente nas casas e imediatamente dezenas de homens apareceram para nos ajudar. Mas mesmo depois de mais de uma hora tentando empurrar o caminhão, nós continuávamos atolados. Nossa tour leader conseguiu chamar uma máquina retroescavadeira que serviu de macaco e depois de algumas tentativas o caminhão finalmente saiu do buraco. O problema depois foi outro, pois uma confusão se instalou e todos que estavam ali foram abordar o motorista para pedir uma retribuição pela ajuda. Ainda bem que o Often é queniano, fala a mesma língua e com toda sua experiência de anos na estrada, conseguiu contornar a situação. Duas horas depois e todos cheios de lama, mas muito aliviados, seguimos viagem rumo a Kampala, capital da Uganda. 😅
Por conta do incidente, infelizmente não tivemos tempo de explorar a cidade que é a maior do país, com mais de 1,5 milhão de habitantes, e tem uma história importante por conta dos regimes ditatoriais (Obote e Amin) que desolaram o país nos anos 70-80. Não vamos entrar em detalhes para não alongar muito o texto, mas quem tiver curiosidade, vale a pena ver o filme “O último rei da Escócia”.
Passamos a noite em Kampala e na manhã seguinte já pegamos a estrada novamente, rumo ao Vilarejo de Kabale. Depois de umas 3 horas de viagem, estávamos novamente no Equador, dessa vez cruzando do hemisfério norte para o sul.

Nosso café da manhã foi nessa emblemática linha imaginária, no AidChild Cafe. O lucro do estabelecimento é destinado à bolsas escolares para crianças de famílias afetadas pelo HIV. Uma linda causa e tudo uma delícia – parada obrigatória!
Ali, na imaginária linha do Equador, tivemos uma suposta demonstração do efeito Coriolis, que é responsável pelo sentido com que ciclones e marés giram dependendo do hemisfério onde estão ocorrendo (anti-horário no hemisfério norte e horário no hemisfério sul). A demonstração ocorre em uma espécie de bacia que é transportada do hemisfério sul para o norte (e vice-versa), demonstrando que a água girava em sentidos diferentes. O James já tinha lido a respeito do truque famoso, mas deixou seu lado engenheiro de lado e não quis interferir durante a apresentação. O fato é que o efeito Coriolis não é forte o suficiente perto da linha do Equador (a qual, aliás, tem uma largura de vários quilômetros) para provocar qualquer mudança na direção da água, que nada mais é que um truque de como a pessoa coloca a água no vasilhame… 😏 Enfim, deixamos para compartilhar nossa descoberta com os outros viajantes, mas a maioria não gostou muito e preferiu acreditar no truque… Quem não gosta de mágica afinal? haha 🧙♀️


Depois dessa parada, o resto do dia foi dedicado à estrada. O almoço foi bem rápido, no acostamento mesmo, e assim conseguimos chegar em Kabale antes de anoitecer. Um longo dia na estrada, mas com vistas de tirar o fôlego: plantações de arroz, banana, muito verde por todos os lados!! Como de praxe, a primeira coisa a fazer por lá foi montar as barracas e logo fomos preparar o jantar, pois era dia do meu grupo (Gabi) cozinhar. Fizemos um jantar mexicano que foi sucesso! Segundo alguns, o melhor de toda a viagem! 👏👩🍳😋

Passamos três noites em Kabale, acampados às margens do Lake Bunyonyi. Ali perto fica a impenetrável floresta de Bwindi, que é assim conhecida por conta da densidade de sua mata, extremamente fechada. Na floresta de Bwindi, Patrimônio da Humanidade declarado pela UNESCO, habitam cerca de 400 gorilas de montanha, quase metade da atual população mundial dessa espécie. Visitar os gorilas em seu habitat natural era o momento mais desejado dessa viagem e, por conta disso, precisávamos ficar mais tempo por aqui. 🦍😃
No primeiro dia em Kabale, parte do grupo foi fazer um trekking para ver outra atração do local, os Chimpanzés. Como já tínhamos investido muito para o trekking dos gorilas, optamos por passar o dia no camping, aproveitamos para atualizar o blog, escrever uns postais, lavar roupa e descansar bastante.
No segundo dia em Kabale, parte do grupo foi fazer o tão esperado trekking com os gorilas. Como o número de pessoas que faz o passeio é bastante limitado para preservar ao máximo os animais, fomos separados em duas turmas. Nós fomos alocados na segunda turma, então tivemos mais um dia pelo Bunyonyi e aproveitamos para conhecer um projeto social desenvolvido em ficava na outra margem do lago.



Por lá, o Edson e o Stephen fazem um lindo trabalho voluntário, afim de arrecadar verba para a educação dos jovens da comunidade. Na vila, só há escola primária e, para que os alunos continuem os estudos, eles precisam morar em outra cidade. Sem dinheiro para bancar os custos envolvidos ao morar fora, muitos desistem de seguir os estudos e essa acaba sendo uma grande barreira para o desenvolvimento da comunidade. A receita obtida através do projeto é destinada a cobrir esses custos, como aluguel, refeições e outros, e assim garantir que alguns jovens tenham a possibilidade de ingressar no ensino superior.
A renda do projeto depende do turismo no local. O Edson e o Stephen, idealizadores do projeto, guiam os visitantes pelo vilarejo, mostram a escola e nos apresentam ao povo local. Nós fomos durante as férias escolares, mas mesmo assim fomos recepcionados por várias crianças que dançaram e cantaram e nos deram uma canseira. 😅 Para quem visita no decorrer do ano letivo, a maior parte do passeio é dentro da escola, trocando conhecimento com os alunos.
Tivemos ainda um almoço delicioso preparado pelo próprio Edson e sua esposa: ensopado de crayfish (lagostim), batata doce, batata e arroz. 😋






De barriga cheia, eles ainda nos levaram para uma caminhada para nos mostrar o lindo vilarejo, rodeado de natureza. Para buscar renda adicional ao projeto, o Edson construiu cabanas para em breve oferecer o serviço de acomodação. E para que o projeto não dependa só dos turistas, parte das doações foi recentemente destinada à construção de um galinheiro. As galinhas estão crescendo e assim que começarem a pôr ovos irão garantir uma renda mensal essencial para a longevidade e possível expansão do projeto. Lindo projeto! 😍



Voltamos para o acampamento e passamos a tarde jogando cartas, enquanto esperávamos o pessoal que tinha ido fazer o trekking para ver os gorilas. Eles saíram de manhã cedinho, mas como os animais vivem livremente pela floresta, nunca se sabe quanto tempo será necessário caminhar para encontrá-los… Já estava escurecendo quando eles finalmente chegaram. Todos voltaram extremamente cansados, pois tinham caminhado mais que o esperado e acabaram sem comida, água e com muita chuva e formigas. A chuva também não deu trégua durante a noite, e ao ver o grupo exausto, deu até vontade de desistir do nosso trekking, que seria no dia seguinte. 😬 Mas passado o cansaço, e depois de um banho quente, todos já mostravam o entusiasmo desse encontro lindo. A dificuldade da trilha só deixou a aventura ainda mais inesquecível pra eles!
Dia 05.12.2019, nosso último dia em Uganda, era chegada a hora do nosso tão esperado encontro com os gorilas. Éramos 4, James, eu , Steph e Vincent. Saímos do nosso acampamento às 5:30h da manhã em direção à impenetrável floresta de Bwindi. A viagem até lá levou cerca de 2h, sempre com o visual das montanhas e a beleza do orvalho da manhã sobre as plantações.


Ao chegar na sede do Parque Nacional de Bwindi, recebemos as instruções sobre o passeio. Outras três pessoas se juntaram ao nosso grupo e ao todo éramos 7 visitantes. Um guia e outros dois guardas armados nos escoltavam, em caso de encontrarmos algum animal agressivo pelo caminho. Eles comentaram que isso raramente acontece e que nunca precisaram atirar, mas vai saber né… Depois de quase 2h de caminhada, encontramos a família de gorilas. Eram 8: um silver back, ou macho alfa, 3 fêmeas e 4 filhotes. Ficamos 1 hora inteira acompanhando eles, que passam a maior parte do período da manhã se alimentando.
Durante essa hora que tivemos com eles, pudemos ver as mamães amamentando, dois machos ainda crianças pulando de galho em galho e um deles batendo com as mãos no peito (“charging”), que é como os gorilas fazem quando estão nervosos, mas ele só queria chamar atenção. Um momento inesquecível!!! 🦍😍






O tempo que se passa com os gorilas é limitado e precisa ser respeitado. Além disso, cada família de gorilas pode ser vista por apenas um grupo de turistas por dia, afim de que o impacto na rotina deles seja minimizado. Para garantir a perpetuidade da espécie, é imprescindível que o ambiente deles seja preservado. Os gorilas quase entraram em extinção por conta de guerras na região e crescimento populacional, que invadiu parte da floresta e assim fez com que as doenças humanas atacassem também esses animais, além da caça clandestina. Na década de 90 os esforços para preservar a espécie aumentaram e estima-se que a população saltou de 620 em 1989 para 1004 gorilas de montanha atualmente. O trekking para ver os gorilas é um passeio bem caro e é uma das principais fontes de renda que financia o programa de conservação da espécie.


Seguindo as regras, depois de uma hora com a família de gorilas, pegamos o caminho de volta, em direção à entrada do parque. Lá encontramos nossa van e seguimos em direção a Musanze, já em Ruanda. Cruzar a fronteira foi super tranquilo e por volta das 16h já estávamos no acampamento, que era num convento. Lá encontramos o resto do grupo, que tinha feito o trekking no dia anterior e seguiu direto de caminhão de Kabali. E nossa recepção em Ruanda foi com uma boa notícia, depois de um dia na floresta, tivemos upgrade gratuito, com direito a chuveiro quente e cama. Que delícia!!! 😅
Na manhã livre em Musanze, parte do grupo foi visitar uma produção artesanal de cerveja de banana. Nós tínhamos provado a cerveja no dia anterior e o gosto não agradou, então trocamos a cerveja de banana por um treino de corrida. Também aproveitamos para visitar um projeto de conservação de gorilas (Dian Fossey) e tomamos um café delicioso. Estávamos com saudades de um bom expresso e o café de Ruanda também é muito especial, então resolvemos pular esse passeio e aproveitar o dia do jeito que a gente gosta… hehe


Ao meio dia já saímos em direção a Kigali, capital do país, onde visitamos o memorial do genocídio. Por lá, cerca de 250 mil pessoas estão enterradas (sim, você não errado 😢). A visita ao memorial é chocante. Inacreditável pensar que em 1994, ano que muito nos marcou pela conquistou o tetra no futebol, uma matança tão brutal aconteceu e pouco lembramos do assunto. Aliás, existe muita crítica à ONU, à Bélgica, que colonizou o país até 1962, e outros países que poderiam e deveriam ter interferido.
Foram mais de um milhão de mortos em menos de 100 dias por uma briga causada por conta da rivalidade entre as duas principais etnias do país: Hutus e Tutsis. Cerca de 85% dos ruandenses são Hutus, mas em contra partida foram os Tutsis que dominaram o país durante muito tempo. Em 1959 os Hutus derrubaram a monarquia da tribo rival e tomaram o poder. Temendo repressão, uma grande parte da população Tutsi fugiu para países vizinhos e um grupo rebelde de exilados foi formado. A Frente Patriótica Ruandesa (RPF) invadiu o país em 1990 e a luta entre as duas etnias durou até 1993, quando um acordo de paz foi firmado.
Porém, no dia 06.04.94, um ataque à tiros alvejou o avião que levava o presidente de Ruanda (Hutu) e derrubou a aeronave, matando todos que estavam à bordo. Hutus incriminaram os Tutsi pelo episódio, e no dia seguinte começou a matança. As imagens do museu são chocantes! Muito triste! O episódio marcou o país pra sempre e, hoje em dia, os cidadãos não aceitam mais qualquer distinção étnica e apenas aceitam ser chamados de “ruandenses”.


Depois da visita ao memorial, fomos para o hostel, onde dormiríamos naquela noite. Tomamos um banho pra recuperar as energias e o grupo todo saiu pra jantar, afinal era a despedida de 4 pessoas do grupo. A aventura pra elas se encerrava no dia seguinte. 😕 Normalmente os Overland Tours são longos, durando cerca de 3 meses. Alguns fazem o percurso todo e ficam 90 dias na estrada – uma rota que iria do Quênia até a África do Sul no nosso caso -, mas ao longo da viagem entram e saem novos viajantes. Depois dessa primeira despedida do grupo, eu e o James ainda ficaríamos mais uma semana, totalizando 19 dias no caminhão! Depois do jantar em Kigali, parte da galera se animou e emendamos uma baladinha!! Sexta-feira pede né?! hehehe 😁


Apesar da balada ter sido forte, não tínhamos muito tempo pra conhecer a capital de Ruanda. Juntamos nossas forças e na manhã daquele sábado saímos para tomar café da manhã fora e conhecer o centro de Kigali. E que bela surpresa. Uma cidade bem limpa, ruas largas, muitos prédios e tudo bem organizado. Não é à toa que Ruanda é conhecida como a Suíça da África. 👏 Fomos nos correiros deixar uns postais e podemos dizer que o serviço em Ruanda está aprovado: todos chegaram! Subimos também no Ubumwe Grande Hotel, que tem uma linda vista da cidade. No início da tarde, voltamos para o hostel, pois era hora de seguir viagem…



Nesse dia foram só umas três horas de estrada. Nossa última noite em Ruanda foi em um vilarejo mais ao leste do país, já próximo à fronteira com a Tanzânia. Aproveitei (Gabi) que chegamos cedo e saí pra correr. O treino pelas áreas remotas da África não era uma simples corrida, mas uma experiência, um momento de interação com os locais. Eles ficavam surpresos ao ver um Mzungu correndo. As crianças sempre vinham acompanhar a corrida por alguns metros, muitos cumprimentavam e apoiavam, tudo de uma forma muito genuína, uma sensação incrível. Enquanto isso, o grupo do chef James preparava nosso jantar.
Prontos para mais um longo dia na estrada, madrugamos em Ruanda e depois de duas horas de viagem cruzamos a fronteira e entramos na Tanzânia. A mudança de país foi notada principalmente na condição das estradas, que naquela região da Tanzânia são bem ruins. Foram mais umas quatro horas de muita “Africa Massage” (muitos buracos na estrada) até chegarmos em Biharamulo, um pequeno vilarejo totalmente fora da rota turística da Tanzânia.
Ao chegarmos na ‘pousada’, as crianças logo dominaram o lugar, curiosas para ver os Mzungus. Assistimos com eles o segundo tempo de um amistoso entre Quênia e Tanzânia, grandes rivais no futebol. Tivemos um jantar delicioso e logo fomos dormir. No dia seguinte, caímos cedo na estrada novamente. No caminho, paramos para tomar café da manhã em outro vilarejo e pela reação das pessoas, eles certamente quase nunca recebem visitantes. A curiosidade do pessoal era incrível. A comunicação foi só através dos gestos, e ainda assim funcionou muito bem. Tomamos um café delicioso, seguido de um chá de capim limão num lugar super simples e igualmente especial. 😍




Para completar o café da manhã, faltavam os chapatis (espécie de panqueca) e nos chamaram para ajudar na preparação. Fui (tentar) ajudar a cozinheira que estava fazendo, mas faltou prática hehehe. As crianças se divertiram muito assistindo aquilo tudo. Depois desses momentos super espontâneos e especiais, retomamos viagem até chegar às margens do Lago Victoria.
De lá, pegamos um Ferry para ir até o outro lado do lago e, no meio da tarde, chegamos em Mwanza. Naquela região, o lago mais parece uma praia, então aproveitamos que o tempo estava bom pra curtir ao ar livre. Jogamos vôlei com o nosso grupo e o James até encarou um banho de lago depois.


De Mwanza dirigimos em direção a Musoma, outra cidade beirada pelo lago Victoria. O dia começou bonito, mas no meio da tarde a chuva voltou. Paramos para almoçar em mais um vilarejo pouco visitado – esses restaurantes super locais valem mais que muitos pontos turísticos. 😍 Antes do destino final ainda paramos para fazer compras em um mercado/feira também bem local – mais um passeio super legal e fora do comum. Por conta da chuva, não conseguimos aproveitar muito, só fizemos as compras necessárias e logo seguimos viagem. Nesse dia a chuva também nos fez de desistir de acampar. Nos rendemos ao upgrade e pegamos um quarto. No seguinte acordamos com um lindo amanhecer às margens do Lago Victoria, e assim nos despedimos dessa rápida passagem de volta pela Tanzânia.



Depois de umas 2h de estrada, por volta das 9h já estávamos cruzando a fronteira e entramos no Quênia novamente. O destino dessa vez era a Reserva Nacional de Maasai Mara, onde fizemos os últimos safáris dessa nossa passagem pela África. Ao chegarmos no acampamento, montamos nossa barraca pela última vez e já no fim da tarde saímos para explorar a reserva com os veículos de safári.
Nessa hora do dia, geralmente a temperatura está mais amena e os animais saem em busca de água e comida, mas os indícios de que uma tempestade estava por vir acabou espantando muitos deles. Durante o passeio, encontramos muitos antílopes, lindos avestruzes e búfalos, mas por um bom tempo o momento de mais emocionante foi mesmo quando atolamos na lama (sim, de novo… haha). Foram algumas tentativas, até que um carro mais robusto nos deu um “empurrãozinho” e finalmente pudemos continuar o safári. 😅



Logo depois a chuva começou e foi a vez dos felinos entraram em ação. Não tínhamos esperança em encontrá-los, já que eles estão entre as espécies que não gostam de se molhar. Mas como os leões também são imprevisíveis, nós, felizmente, fomos pegos de surpresa. Encontramos um grupo de leões que devorava sua presa, um verdadeiro banquete, e os fez ignorar a chuva. Assim, tivemos a sorte de ver os leões mais uma vez e de uma forma bem diferente e especial. 😃



Depois da tempestade, o sol saiu novamente e já no caminho de volta pro acampamento ainda encontramos uma família de cheetas (guepardos). Para fechar o dia, ainda fomos presentados com um lindo pôr do sol e assim todos voltaram super felizes e satisfeitos!



No último dia de overland acordamos cedinho, tivemos um lindo nascer do sol de presente, mas o safári acabou não sendo muito produtivo… Já no fim da manhã, voltamos pro acampamento e um brunch delicioso nos aguardava. Já passava do meio dia quando pegamos a estrada rumo à Nairobi, de onde tínhamos partido há 19 dias. Para nós, esse era o ponto final de mais uma experiência incrível. O overland foi uma viagem diferente de tudo que já tínhamos feito. Passamos por lugares muito remotos, tivemos contato com pessoas de vilarejos pouco visitados, conhecemos os famosos gorilas e muito mais… tudo isso, com um grupo das mais variadas idades e profissões, parceiros de monopoly deal para os longos dias na estrada. Muito obrigada por tudo, pessoal! Que a gente possa se reencontrar pelo mundo! 😃



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